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Um bairro que transpira fé

A Festa do Divino Espírito Santo é uma comemoração tradicional em muitos lugares do Brasil e do mundo
Data: 09/2003


A Vila Santa Isabel tem 72 anos de história para contar. Nascida da Fazenda dos Eucaliptos em 5 de agosto de 1931, a Vila, que mais parece uma cidade do interior, possui na Igreja de Santa Isabel, um marco de cultura, fé e religiosidade.

Neste ano, duas das mais tradicionais festas ocorridas no bairro servem para explicar como brotou essa fé em seus moradores: a Festa do Divino Espírito Santo e a de Santa Isabel. Para que pudéssemos retratar um pouco da cultura e da tradição que as envolvem, contamos com a colaboração do casal Marcos José de Aquino Pereira e Tatiana Heidorn, membros da Irmandade da Santíssima Trindade de Santa Isabel e mordomos da Festa do Divino.

Ruas enfeitadas, fogos estourando por toda parte, som de banda tocando suaves melodias, moças, rapazes, crianças e adultos vestindo trajes brancos, empunhando bandeiras vermelhas e estandartes... Esse era o o cenário no qual moradores da Vila Formosa e da Vila Santa Isabel se depararam na manhã de 15 de junho, quando começava a Festa do Divino Espírito Santo, saindo da casa dos mordomos, em procissão à Igreja Santa Isabel, onde aconteceu a Missa Solene de Coroação.

Tudo começou em Portugal

Essa tradição foi iniciada no século XIII, mais precisamente em 1220, quando o reino de Portugal se encontrava à beira de uma sangrenta guerra: o filho da rainha Isabel, príncipe Dom Afonso, receoso de perder o direito ao trono, declara guerra ao pai, o Rei Dom Di-niz que, ferido em seu orgulho e vaidade, manda seus exércitos para com-bater o filho.

Nessa situação onde pai e filho são personagens de uma guerra que destruiria a vida de muitas famílias, alimentando o ódio e colocando fim ao reino, a Rainha tem um ato de coragem: reúne a corte e vai exatamente para Alenquer, em Portugal, ficando assim entre os dois exércitos.

Procura, entre os pobres, uma criança e reúne todo o povo. Ela coroa o pobrezinho que representaria o Espírito Santo como Rei de Portugal, por acreditar que onde Ele reinasse, haveria amor.

Ao saber do acontecido, pai e filho se comovem, reconciliam-se e a paz volta a reinar em Portugal. Nessa data, a Rainha Santa, como ficou conhecida, fez todo o povo se sentar ao redor de uma grande mesa, pobres e ricos, nobres e plebeus, sem distinção, e trocando os trajes reais por uma roupa simples de algodão cru, serviu-lhes sopa, carne e pão.

A Festa do Divino se popularizou em todo o Reino, depois nos Açores, e veio junto com os colonizadores portugueses para o Brasil, onde logo se tornou uma tradição folclórica e religiosa encontrada em quase todas as cidades e vilas, sendo famosas as festas do Nordeste e de Mogi das Cruzes (SP), onde acontecem as cavalgadas com charretes e carroças.

As famílias acolhem o Divino

Em nossa região, a Festa do Divino acontece há anos, mas, foi em 1988 que o então pároco, Pe. Ronan Avino, pediu que se realizasse no Domingo da Santíssima Trindade: “Ele também quis que o evento fosse realizado em nossa Igreja, já que foi Santa Isabel, nossa padroeira, a responsável por sua criação. De Portugal chegaram a bandeira e a coroa e iniciamos os terços”, conta Ilda Salvador, que juntamente com os irmãos Ana, Otilde e João Luís, fundaram a Irmandade da Santís-sima Trindade de Santa Isabel, entidade sem fins lucrativos que promove a festa.

Todo ano, no Domingo de Ascenção (primeiro após a Páscoa) iniciam-se as Domingas, nome popular açoriano para designar os tradicionais terços cantados, que percorrem sete casas, sorteadas no ano anterior. Vão para estas famílias, a bandeira e a coroa do Divino e todos têm uma grande fé de que o próprio Espírito Santo os visita para levar uma boa notícia, realizar algum sonho ou apenas consolar: “Meu pai faleceu este ano e sua presença em minha casa foi um momento muito forte para nós”, fala Eduardo Tedim Ramos.

Durante as Domingas desse ano, muitos fatos foram narrados pelos devotos. Pessoas que estavam doentes e internadas na UTI, se recuperaram e participaram da Festa e da Missa de Coroação: “Um deles foi o Sr. Manuel Carvalho da Luz, internado com problemas de coração e, uma semana antes da festa, teve uma recuperação que nem os médicos conseguiram explicar e foi o Mestre de Cerimônia, entregando a Coroa do Divino ao Pe. Tarcísio Mesquita”, relata Pereira.

A última Dominga realiza-se na casa dos mordomos e têm como função arrecadar doações, organizar a Festa e divulgar a devoção ao Divino: “No começo, parece uma missão difícil, mas a cada dia se conquista o que é necessário. Uma semana antes da Festa não tínhamos a banda para tocar, depois conseguimos duas maravilhosas”, garante Pereira.

A Festa da Coroação

No dia da Coroação, a procissão saiu da casa dos mordomos indo até a Igreja. “Nesse percurso são levadas as sete bandeiras e as sete coroas, por crianças vestidas de branco, sendo precedidas pela imagem peregrina do Divino e a banda dos Arautos do Evangelho tocando hinos religiosos”, relata Pereira.

Na entrada da Igreja, os mordomos entregaram a coroa principal ao Pe. Tarcísio, atual pároco, que iniciou a missa Solene, onde Sophia H. de Aquino Pereira, a criança da sétima Dominga foi coroada ao som do tradicional Hino ao Espírito Santo.

Em seguida, foi feita a entrega da imagem peregrina: “Uma novidade que incluimos na tradição, pois em Portugal ela não existe, somente a coroa e a bandeira. Queríamos algo que pudesse, durante o ano todo, percorrer as casas. É uma imagem barroca, toda entalhada em madeira, que foi adquirida através de doações”, explica Pereira.

Segundo ele, a encenação contando a origem da festa feita pelos jovens do Crisma coroou o evento. Ao final, seguiu a procissão de volta à casa dos mordomos onde foram servidos o famoso Bolo de Massa Açoriano, carne e vinho, mantendo assim a tradição de Santa Isabel: “A sopa foi dada aos presentes na noite do sábado”, completa Tatiana.

Alimentos também foram levados ao asilo Instituto Pró-Vida São Sebastião: “Uma das senhoras lembrou da Festa do Divino quando ela era criança e sua mãe escrava. Foi muito emocionante”, relatou Pereira.

Realizou-se então o sorteio para as Domingas e para os mordomos do próximo ano: “Vamos nos unir cada vez mais para aumentar a devoção e para que a Irmandade possa cumprir o seu papel da melhor maneira possível, ajudando aqueles que mais precisam”, diz entusiasmado o próximo mordomo, Antonio Carlos T. de Araújo.

“O evento do ano que vem já está marcado para 6 de junho e convidamos a todos para prestigiarem a cultura e a tradição de nossa região, pois a cada ano a celebração fica ainda mais emocionante, e devido a peregrinação da imagem nas casas será ainda mais especial”, garantem Tatiana e Pereira.


A festa da Rainha

Espetáculo de fé e religiosidade na celebração de Santa Isabel

Há muito não se via uma demonstração tão bela de fé e devoção como no dia 6 de julho, domingo em que ocorreram as comemorações do Dia de Santa Isabel, rainha portuguesa que usou seu poder e riqueza para socorrer os pobres e conquistar a paz.

As comemorações começaram com o tradicional terço cantado pela Irmandade da Santíssima Trindade de Santa Isabel, diante da relíquia (objeto que possui um pequeno fragmento da sua unha e um pedaço do manto que a veste, já que seu corpo permanece intacto até hoje na Igreja de Santa Clara, em Coimbra), que pela primeira vez, em mais de 50 anos deixou a Paróquia para ir a casa dos mordomos da Festa do Divino de 2004: Antonio Carlos Tadim de Araújo e Elisabete Arruda da Luz Araújo.

Dali saiu a procissão até a Igreja com a participação da Banda dos Arautos do Evangelho, cujos componentes com trajes medievais tocavam o Hino da Santa, seguidos pela Irmandade que, com roupas típicas portuguesas, levavam a relíquia ladeada pelas bandeiras do Brasil e de Portugal.

Ao chegar à Igreja de Santa Isabel, Pe. Tarcísio celebrou a missa, na qual mais de mil pessoas participaram e se emocionaram com a liturgia preparada pela comunidade, que teve a Bíblia trazida por uma bailarina.

“A entrada da relíquia foi algo como nunca se viu; tendo os Arautos se perfilado no meio da Igreja, assim como as crianças que jogavam pétalas de rosa, lembrando o famoso “Milagre das Rosas”, atribuído a Santa Isabel, que segundo antiga tradição, teria transformado pães e moedas em rosas para evitar que os pobres fossem castigados por seu marido, o Rei Dom Diniz”, comenta Pereira.

No altar cantou-se a ladainha de Santa Isabel, onde foram lembrados todos os títulos a ela dados: “Mensageira da Paz”, “Mãe dos Pobres”..., sendo que a cada invocação projetava-se no telão uma imagem diferente da santa em vários lugares que a cul-tuam no mundo.

Foram oferecidos pelos devotos símbolos como a pomba da paz, um cesto de pães e rosas, a Coroa e a Bandeira do Espírito Santo, lembrando os feitos da Rainha que criou a Festa do Divino e inspirou a fundação das Santas Casas de Misericórdia, tendo construído asilos, abrigos para órfãos, conventos e igrejas.

Essas ofertas foram recebidas por três jovens que representaram Isabel como princesa, rainha e freira; pois após a morte do marido ela depôs a coroa em Santiago de Compostela. Após fazer o caminho todo a pé, vestiu o hábito franciscano e usou toda a sua riqueza para a caridade. “Conta-se que recolhia os indigentes pelas ruas, lavava-lhes os pés e lhes servia farta mesa”, conta Pereira.

Após a missa, uma grande procissão percorreu as ruas do bairro, para levar um pouco desta fé às casas e famílias que acolhiam a imagem de Santa Isabel enfeitada com flores”.

No percurso, os jovens do Crisma recolheram mantimentos para serem doados às famílias mais necessitadas, recordando o que a Santa ensinou.

Na chegada à Igreja, os moradores da R. Condeúba realizaram queima de fogos para saudar a imagem da padroeira, que entrou majestosamente levada apenas por mulheres, como manda a tradição iniciada por Monse-nhor Ciro Turino, na década de 50, responsável pelo desenho e pela construção da I-greja: “Ele foi o grande civilizador do bairro e lutou muito para que Santa Isabel tivesse o seu lar, seguindo um sonho que teve. Sua proximidade com o povo era muito grande”, afirma Pereira, que o conheceu e conviveu com ele.

Para encerrar a celebração, foram distribuídos rosas e pãezinhos e ouviu-se o canto da Ave-Maria em gregoriano, interpretado pelos Arautos, coroando assim o que para muitos foi uma das mais esplêndidas festas de Santa Isabel. “Devemos aproveitar esse momento e unir os moradores da comunidade para que a cada ano a Festa se torne mais bonita e Santa Isabel seja louvada como merece, por sua vida e graças que concede aos devotos”, complementou Pe. Tarcísio.

A Igreja de Santa Isabel está localizada à Alameda Rainha Santa, s/nº - F: 6781.1048.

Crédito da matéria: Revista IN


 
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