| Passado e presente unidos pela fé
Imagem restaurada retorna e marca os 60 anos desde a sua chegada ao bairro
Data: 16/8/2004
Vila Santa Isabel apesar de ser jovem, completará 73 anos no dia 5 de agosto, tem muita história a revelar. Ao longo desses anos, em que elaboramos matérias especiais sobre o bairro, tivemos a certeza de que todos se orgulham de ser o Santuário de Santa Isabel o verdadeiro significado de sua história, pois foi pela sua construção que os moradores se uniram e lutaram muito para que um sonho se tornasse realidade.
Em nossas entrevistas anteriores, tivemos depoimentos sobre a história do Santuário, mas Fernando Augusto Nunes, Luiz Fernando Gomes e Marcos José de Aquino Pereira se uniram, numa pesquisa que teve início no ano passado, para que, com a ajuda de outros moradores antigos, pudessem através de documentos, fotos, lembranças e, principalmente, a vivência de cada um no bairro desde que nele chegaram, retratar como foi que tudo começou e porque este local se tornou conhecido no mundo inteiro.
“Sabemos que onde se encontra o Santuário, foi um terreno doado por Maria Teixeira de Carvalho, com a finalidade de se construir uma igreja católica. Ergueu-se uma capela que, durante muito tempo, serviu para as santas missas e as rezas às 19 hs e na hora do ‘angelus’, às 18. Para chamar os fiéis, meu pai tocava um sino de aproximadamente 90 cm de diâmetro, em bronze trabalhado, e depois eu e meu irmão mais velho também o fazíamos”, conta Luiz Fernando Gomes, que chegou ao bairro em 1947.
Dentro desta capela estava a primeira imagem da padroeira do bairro: “Esta imagem de Santa Isabel chegou no início da década de 40, trazida de Portugal por Maria Teixeira de Carvalho e apresentada à comunidade no dia 1º de novembro de 1944, quando foi inaugurada a primeira capelinha, onde hoje se encontra o Santuário. Foi uma grande alegria para todos verem a igrejinha construída e a imagem em seu altar abençoando os devotos”, recorda Amália Gomes, uma das moradoras mais antigas.
No último dia 4 de julho, nas festividades de Santa Isabel, um momento único foi celebrado. Marcos José de Aquino Pereira, que teve em sua casa a Relíquia (pequeno fragmento do corpo da Santa, que pela segunda vez em 50 anos deixou o Santuário), e a imagem, (pela primeira vez venerada e tocada pelos fiéis), anunciou na Igreja, que estava tomada pela comunidade: “Vamos acolher, com grande alegria e emoção, nas comemorações dos 60 anos de sua chegada, a primeira imagem de Santa Isabel, trazida a esse bairro, nesse momento histórico em que passado e presente se unem em uma demonstração de amor e carinho para com nossa padroeira, que retornará ao seu lugar no alto da torre”.
“É um momento muito especial para todos, pois a volta desta imagem à torre simboliza a continuidade que deve ser dada a esta obra de fé e amor dos que vieram antes e construíram este Santuário. Temos a missão de conservá-lo e de zelar por ele”, disse Pe. Tarcísio Mesquita, na reentronização da imagem na torre (vide foto).
“Ao olharmos para a torre de qualquer lugar de São Paulo e lembrarmos que a imagem está lá, nos recordaremos que Santa Isabel olha por seus devotos e intercede a Deus por todos eles. É um sonho que se torna realidade”, complementa Fernando Augusto Nunes.
A realização de um sonho
Monsenhor queria transformar a Vila Santa Isabel num bairro muito grande, e para isso tinha a necessidade de construir um Santuário
É difícil conhecer pessoas que realmente lutam para que os seus sonhos se tornem realidade. Mas quem conheceu e conviveu com Monsenhor Ciro Turino, nascido em 2 de abril de 1920, em Nápoles (Itália), constatou que, mesmo diante das dificuldades, não se deve desistir.
Em 1º de outubro de 1951, vindo do bairro do Limão, chega um padre novo, italiano, falando um português carregado, mas cheio de vontade: “Neste dia, estávamos eu, a Iracema e a Tercília juntas varrendo a igrejinha, quando o padre Ciro chegou e entrou. Nós o recebemos com muita alegria. Era jovem, usava batina preta e de-monstrava bastante entusiasmo com todos que se aproximavam dele”, afirma Amália.
“Quando o Monsenhor chegou, era um moço muito novo e bonito. Eu me lembro que na casa em que ficava ao lado da capelinha não tinha quase nada, então fizemos uma campanha para comprar os móveis e as roupas. Também não havia quem cozinhasse, então a Dona Nisma levava comida para ele. O padre Ciro acordava bem cedo e passeava pelo bairro por volta das 6:30hs. Durante o dia, ficava em sua casa ao lado da igrejinha, sempre com a Bíblia aberta em cima da mesa, atendia a todos. Às vezes chegava alguém que pedia uma missa pela alma de algum falecido. Ele, então, parava o que estava fazendo e ia para dentro da capela. Voltava e dizia: “Pode ir em paz, a missa já foi rezada”, conta a moradora Iracema Vitorino Matias.
O sonho
O Santuário, marco do bairro, começou a ser construído na década de 50, por iniciativa do Monsenhor, que teve um sonho onde a própria Santa Isabel lhe aparecia ao lado de uma grandiosa torre e pedia que ele a construísse e colocasse sua imagem no alto, para que ela pudesse abençoar seus devotos em toda a cidade.
Quando foi pedir aprovação para a planta do Santuário junto a Cúria Metropolitana, os responsáveis pela secretaria de arte sacra reprovaram o projeto e disseram que um edifício daquela proporção só poderia ser construído na Av. Paulista e nunca em um bairro da periferia da cidade. Mesmo assim, Monsenhor não desistiu, foi até Campos do Jordão, onde encontrava-se o então cardeal Dom Motta, recuperando-se de uma pneumonia, e contando-lhe o sonho e apresentando a planta conseguiu sua aprovação e benção para iniciar a construção. Contrariando todas as normas de arquitetura e engenharia, a torre foi construída antes do Santuário. Ela tem 93,60 m, elevador com capacidade para 15 pessoas e 407 degraus para se chegar ao topo, onde agora encontra-se a imagem de Santa Isabel.
As campanhas para doações
O Santuário foi todo erguido com doações de fiéis e devotos da Santa: “Muitas vezes, nós íamos até o centro da cidade, na R. Direita ou na São Bento, e pedíamos doações para ajudar na construção. A cada contribuição, retribuíamos com um santinho, muita gente ajudava”, conta Iracema.
“Chegamos ao bairro em 1962 e, desde o início, participamos das campanhas para arrecadar fundos para a construção da cúpula, como a Campanha do Título de Benfeitor, onde os devotos contribuíam com um valor mensal e ganhavam selos que eram colados em uma cartela que dava direito a um diploma”, conta Ilda de Lima Pereira.
Dentre as curiosidades sobre a construção, vale citar o programa de rádio do Monsenhor, na PR A5 Rádio São Paulo, onde fazia uma novena à Santa Isabel. Na época, década de 50, o alcance do sinal era restrito à São Paulo e adjacências. Mas, de maneira considerada milagrosa, nos dias seguintes ao programa uma verdadeira ‘chuva’ de cartas chegava à emissora com pedidos de oração e testemunhos de curas vindas do interior de São Paulo, de estados longíquos e até mesmo de outros países como Uruguai, Paraguai e Peru. O sucesso do programa de Santa Isabel foi tão grande que chegou a receber prêmio por recorde de audiência e através das contribuições de devotos do Brasil e do exterior, o Santuário foi finalizado e consagrado a Deus no dia 18 de agosto de 1985.
“O Monsenhor conheceu muita gente com o início da construção, e sempre pedia que ajudassem com doações para a obra. Ele organizava quermesses e festas para arrecadar dinheiro para a compra de materiais e pagar os pedreiros. Nós trabalhávamos nas barracas e colocávamos nossas crianças para dormir embaixo delas, enquanto vendíamos rifas e preparávamos os prêmios: frangos assados”, conta Iracema.
Em 24 de novembro de 1993 falece o grande idealizador do Santuário: “Quando ele já estava doente, nós combinamos de ir visitá-lo todas as manhãs e, no dia de sua morte, estávamos lá juntas, como no dia em que ele chegou à igrejinha. Pudemos vê-lo em seus últimos momentos. As três que o viram chegar, agora o viam partir para junto de Deus”, lembra Iracema. O Santuário fica à Alameda Rainha Santa, 322 - Fone: 6781.1048.
Dedicação à história de Vila Santa Isabel
Eles não medem esforços para resgatar a história do bairro e de seu marco, o Santuário. Para o próximo ano, irão descobrir as
curiosidades escondidas no Santuário e seus símbolos. Eles prometeram e nós vamos cobrar! Aguardem!
Crédito da matéria: Revista IN
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